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ROSTO SOCIAL DA RELIGIÃO

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ROSTO SOCIAL DA RELIGIÃO

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ROSTO SOCIAL DA RELIGIÃO

Autor: Roberto Mariz

Editora: Editorial Cáritas

Publicado em: 2016

Preço: € 15,00

Para adquirir este livro online, faça a sua encomenda no site da Paulus ou no site da Wook, ou envie-nos um email para editorial@caritas.pt

 

PREFÁCIO
Vivemos ainda sob os efeitos da modernidade. O que é óbvio, tendo em conta que a denominada cultura ocidental se distingue, em grande parte, precisamente pelo processo moderno que a determinou nos últimos séculos. E trata-se de algo tão inegável como inevitável.
Um dos conceitos mais debatidos no contexto das transformações modernas foi, sem dúvida, o conceito de religião. Também porque talvez tenha sido na relação com esse conceito e com a realidade que eventualmente lhe esteja ligada que a modernidade adquiriu características mais vincadas, assim como as sociedades em que ela ganhou mais expressão.
O problema começa logo na própria definição de religião. De facto, tal como hoje ainda circula pela rua de modo mais ou menos inquestionado e muitas vezes ainda mais indefinido, a noção comum de religião é, em certa medida, produto da própria modernidade. Dela faz parte a delimitação de campos ou de esferas, que as sociedades denominadas desenvolvidas parecem manifestar nas suas estruturas e no seu funcionamento. A mais evidente é a separação entre política, economia, ética e, precisamente, religião. E a tendência mais vincada neste processo foi no sentido de conferir estatuto “público” à política e à economia, e considerar do âmbito privado, porque simplesmente dependente de opções individuais, os campos da ética e da religião.
Ora, esta conceptualização – e o seu claro efeito sobre as organizações sociais modernas – por um lado originou um conceito muito redutor de religião e, por outro, foi provocada por essa mesma redução. Assim, habituamo-nos a considerar como âmbito do religioso, quando existente, aquele domínio completamente individual relativo à crença em Deus, como ser superior e transcendente. Mesmo que a expressão dessa crença, normalmente através do culto, assuma configurações comunitárias, isso parece não eliminar o seu estatuto fundamentalmente privado. E mesmo que as manifestações culturais dessa crença seja evidentes, isso não invalida que se considere a relação individual ao transcendente – nalguns contextos redefinida como “espiritualidade” – como o núcleo da experiência religiosa.
Destas transformações resultou que se tenha passado a considerar, habitualmente, a religião – nomeadamente o cristianismo – como o conjunto de expressões da crença num ser transcendente e inefável, com pertinência individual, relativamente a uma dimensão da vida que nada tem a ver com a organização pública do quotidiano, considerada profana. E os modelos dessa organização têm sido diversos – desde os que se opuseram a esta opção, forçando os indivíduos a abandona-la, passando pelos que a toleraram, mas dentro de limites, até aos que a consideraram benéfica socialmente, mas sempre mantendo a sua dimensão privada.
Acontece que o cristianismo – nem sempre com a mesma intensidade, é certo – sempre viu com suspeita esta separação entre dimensão pública e dimensão privada da atividade humana. Por isso, até chegou a manifestar dificuldade em se aceitar a si mesmo como uma “religião”, no sentido moderno do termo. Porque a sua leitura integral exige uma concepção de ser humano como pessoa, ou seja, como sujeito, cuja diversidade de dimensões não permite a divisão do indivíduo em esferas separadas. A assumir-se como uma religião, o cristianismo não aceita ser relegado para um estatuto simplesmente privado ou simplesmente transcendente. Trata-se de uma interpretação da realidade a partir da sua relação com Deus – nesse sentido, numa perspetiva claramente religiosa – mas que diz respeito a todas as dimensões dessa realidade. A sua visão é pois integral e portanto fundamental. O que não significa que se possa transformar em integrismo – semelhante às leituras perfecionistas e puritanas da realidade – ou em fundamentalismo – que procura impor a sua verdade, não respeitando as pessoas com interpretações diferentes. Trata-se de uma visão integral, com clara noção da historicidade e dos limites da sua condição.
A estruturas cristãs – que em geral assumem o nome de Igreja – sempre mantiveram vivas expressões desta integralidade da sua perspetiva, das quais sobressaem as denominadas “obras sociais”. Essas dão corpo a um espírito religioso que tem consciência de se constituir como realidade concreta, de dimensão pública e cívica, muito para além do conceito moderno de religião.
Mas como todos – e inevitavelmente também os cristãos – vivemos desse conceito redutor, não é garantido que os agentes dessas expressões sociais, sejam eles institucionais ou pessoais, tenham consciência da relação entre essas iniciativas “sociais” e a “fé” que professam, considerada “especificamente” religiosa. Ou seja, pode não existir a consciência de que essas atividades são propriamente religiosas, pois isso parece contradizer o seu conceito moderno, individualizante e até mesmo psicologizante. E é evidente que a configuração psicológica da fé predomina nas comunidades cristãs modernas e pós-modernas, em detrimento da sua configuração pública e mesmo política.
Partindo da reflexão histórica e teórica sobre as transformações do “religioso” ao longo da modernidade que nos marca, a presente obra de Roberto Rosmaninho Mariz procura investigar indicadores que permitam – ou não – identificar essa consciência em determinadas atividades relacionadas com a Igreja católica, que a complexidade do contexto poderia colocar fora do âmbito religioso. Para tal, fundamenta a perspectiva cristã sobre o “religioso” na Doutrina Social da Igreja, melhor fundamento documental para a compreensão da dimensão sócio-política da fé cristã. Partindo dessa “identidade” do cristianismo e do pressuposto de que certas realizações da Igreja, como é o caso de muitas IPSSs, correspondem à articulação histórica da dimensão social da fé, procede a uma análise cuidada dos indicadores que revelem consciência institucional e pessoal desse facto.
Trata-se, pois, de um importante estudo para melhor compreender – numa perspetiva interna, ou seja, partindo do modo como a “religião” cristã se interpreta a si mesma – em que medida as pessoas envolvidas em inúmeras instituições do género estão cientes do seu significado religioso. As conclusões lançam um alerta, que pode ser útil para uma prática auto-reflexiva das instituições eclesiais. Ao mesmo tempo, ajuda a compreender certas articulações do fenómeno religioso num contexto cultural muito próprio, nomeadamente na Arquidiocese de Braga.
Enquanto coordenador do Doutoramento em Estudos da Religião da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Católica Portuguesa, em Braga, saúdo de modo especial este trabalho, por representar a primeira tese defendida neste curso, que recentemente inaugurou, em Portugal, uma área de estudos que se revela cada vez mais importante socialmente, como vem confirmando a história mais recente da Europa.
João Duque
Categoria: Livros
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